filmes de hoje e de ontem.

quinta-feira, julho 27, 2006


A CORPORAÇÃO
(The Corporation)
EUA - 2003 - Documentário
Direção: Mark Achbar, Jennifer Abbott

Diagnóstico: psicopatas

Esse documentário faz um panorama do que rola nos bastidores das grandes empresas ou corporações. Traz à tona toda a irresponsabilidade com que são conduzidos as corporações e suas influências na vida das pessoas e do planeta como um todo.

Uma das sacadas foi tratar as mega empresas como se fossem um paciente sendo avaliado num consultório psiquiátrico, ao que conclui-se que as corporações agem como os indivíduos psicopatas. Não tem preocupação alguma sobre suas responsabilidades e danos que podem causar à sociedade por simplesmente não conseguirem sentir qualquer emoção.

Eu já havia afirmado isso na crítica que fiz ao documentário Enron no meu outro blog. Alguns dos executivos são realmente psicopatas, como um deles (Marc Barry) até chega a admitir: “Eu não sinto absolutamente nada, nenhum remorso pelo que faço, sou um predador...(pausa) pessoas como eu deviam ser isoladas da sociedade”. E não foi ironia. A maioria dos executivos não sofre disso, mas age dessa forma por não sentir-se responsável pelos atos, já que esses são coletivos. E tudo é amparado pela legislação.

O filme é pesado pelo simples motivo de que fica claro que o planeta está à beira de um colapso e as próximas gerações, não a dos nossos netos, a dos nossos filhos, tem um futuro obscuro e incerto.

O documentário conta com depoimentos de vários executivos e intelectuais como Noam Chomsky, e o já bem conhecido Michael Moore e recebeu vários prêmios como o de Melhor documentário - Voto popular - Sundance Festival.

sexta-feira, julho 21, 2006


MUITO ALÉM DO JARDIM
(Being There)
USA - 1979
Direção: Hal Ashby

Intrigante e bom demais, mas apenas para os atentos

O filme, baseado no livro O Vidiota de Jerzy Kosinski, tem uma história peculiar. O escritor, tempos depois de lançar o livro, recebeu um telegrama assinado pelo personagem principal do seu livro, Chance (Peter Sellers). Nele, havia um telefone, para o qual ligou imediatamente. Quem atendeu foi o ator Sellers, que tinha acabado de ler o livro e, de tanto que gostou, encarnou o personagem. O próprio Kosinski acabou adaptando o livro para o roteiro.

É um enredo de pouca ação física, mas em que o psicológico dos personagens está sempre gerando várias perspectivas na cabeça do expectador. Confesso que os primeiros 15 min do filme me pareceram chatos, mas depois vão ser de grande importância para o fechamento do filme. Daí a necessidade extra de estar atento a ele.

Peter Sellers, que faz o papel principal, Chance, definitivamente entrou pra minha lista de atores preferidos. Sua performance valeu uma indicação ao Oscar de Melhor ator, além de ganhar o Globo de Ouro dessa categoria. Chance é um homem na faixa dos 60 anos que passou sua vida inteira sem sair de casa, cuidando apenas do jardim e conhecendo o mundo através da TV. Ele foi criado pelo dono da casa, conhecido apenas como Old Man. Não sabe ler nem escrever e tem o intelecto “cabeça de pudim” como definiu sua ex-empregada. Após a morte do seu tutor, acaba sendo despejado da casa e acidentalmente vai parar na mansão de um ricaço velho e doente, Benjamim Rand (Melvyn Douglas). Douglas recebeu o Oscar e o Globo Ouro de Melhor ator coadjuvante pela sua memorável atuação.

O que acontece é que Chance, por usar trajes elegantes e a falar pouco devido ao intelecto reduzido, dá a entender que é um estranho intelectual. Quando questionado, suas respostas, quando respondia algo, coincidem de forma metafórica com as perguntas, dando a entender que era refinado e inteligente. Assim, acaba entrando para um círculo de poder em que acaba influenciando desde o pensamento econômico até atitudes do presidente dos EUA. São esses absurdos que tornam o filme tão provocativo e intrigante, principalmente depois que você vê o final da trama. Acabei assistindo novamente ao filme, pois acho que ele pode ser visto de outra perspectiva, em que o azarão tem sua redenção, algo como no filme O Cubo. Aliás, a trama dá margem a inúmeras interpretações.

A película é ao mesmo tempo um drama e uma comédia. É uma experiência estranha que pode gerar sentimentos contraditórios ao mesmo tempo. Há uma cena em que Rand, sabendo que estava para morrer, chama Chance para despedir-se. O velho Rand, marido de Eve (Shirley MacLaine), pede para que Chance cuide dela (watch over her) após sua morte, pois confiava nele. É uma cena emocionante, pois antes de morrer, confia sua jovem esposa para outro homem num ato de difícil bondade. O problema, é que no dia anterior, Chance, perguntado por Eve sobre o que ele gostava (sexualmente, o que ele não entende) responde que gosta de assistir (watch) referindo-se à TV. Ela entende que Chance gostaria de vê-la se masturbando, o que acaba fazendo no chão, por ser tímida. Literalmente, Chance a assistiu de cima da cama, que também poderia ser descrito por “watch over her”, o mesmo que o moribundo Rand o havia pedido. Deve-se rir ou chorar numa hora dessas?

Durante os créditos do filme, aparece Sellers tentando fazer uma cena, que nem foi usada no filme, em que deveria falar coisas das mais esdrúxulas. Porém acaba se desconcentrando e rindo várias vezes. Também fiquei comovido ao saber que o ator Peter Sellers morreu no ano seguinte, 1980 e Melvyn Douglas em 1981, conforme os extras do DVD.

quinta-feira, julho 13, 2006


MAR ADENTRO
Espanha - 2004
Direção: Alejandro Amenábar

Fortes e belas emoções

Um filme que vi faz uns quatro anos e que me marcou muito foi o assustador Morte ao Vivo (1996). Apesar de ter gostado bastante, não me dei ao trabalho de saber quem tinha dirigido o filme. Agora, após a feliz recomendação de assistir a Mar Adentro, descobri que eram filmes do mesmo diretor, Alejandro Amenábar. Morte ao Vivo foi o seu primeiro filme a chamar à atenção e que lhe deu certa projeção.
O chileno radicado na Espanha, escreveu em parceria com Mateo Gil o roteiro baseado na história real de Ramón Sampedro. Trata-se da vida de um homem que ficou tetraplégico na juventude e vive deitado em uma cama há quase 30 anos. Considerando isso uma vida indigna, resolve lutar para conseguir a eutanásia. Apesar de o roteiro não ter nada de extraordinário, Amenábar consegue transformá-lo em uma obra-prima.
Para isso, conta com a ajuda fundamental do ator Javier Bardem, que faz o papel principal. Sua atuação valeu a indicação para o Globo de Ouro de Melhor Ator, além de vencer o European Film Awards na mesma categoria, entre outras premiações. Ele já havia trabalhado também no filme Carne Trêmula do espanhol Almodóvar. Aliás, como costuma ser em todo grande filme, não há espaço para Tom Poste Cruises da vida (apesar de irônicamente Amenábar já ter trabalhado com Cruise em Vanilla Sky). Aqui todos os atores são excelentes.
Mar Adentro, vencedor do Oscar 2005 de melhor filme estrangeiro, é um filme que merece todos os adjetivos que lhe são atribuídos. É uma obra tão forte quanto a primeira, porém usa de sutilezas para provocar sensações. E para isso não basta um bom roteiro, é preciso um diretor que preencha as expectativas latentes que o público nem sabe que tem. Isso é surpreender.
Em vários aspectos o filme se diferencia da média. A linguagem do filme é muitas vezes poética e as cenas quase não tem ação. Com relação à trama, se os objetivos fossem Hollywoodianos, normalmente uma história dessa natureza focaria sua atenção na parte jovem e “feliz” do personagem, como em Titanic por exemplo. Também poderia apelar para um sentimentalismo exagerado para fisgar a atenção dos expectadores. Mas Amenábar prefere concentrar-se na fase atual de Ramón, mostrando o seu sofrimento através de ações simples, porém de grande significado introspectivo.
Quem quiser assistir a esse filme, o que recomendo, deve estar aberto à reflexão sobre coisas simples do cotidiano, porém que não são de forma alguma banais. Detalhes que se olhados com atenção podem revelar sentimentos profundos e que muitas vezes nos passam despercebidos.

terça-feira, julho 04, 2006


QUASE FAMOSOS
(Almost Famous - 2000)

Todos os lados dos Rock Stars de 70

O diretor Cameron Crowe (Vanilla Sky, Minority Report) resolveu contar boa parte de sua auto biografia nesse filme que traduz a estética e o espírito do rock dos anos 70.

O roteiro, escrito por Crowe, tem como se alterego William Miller. Ele se torna repórter da revista Rolling Stones, aos 16 anos. O jovem repórter, recebe como desafio incial a tarefa de acompanhar e cobrir a turnê da banda fictícia Stillwater, que estava começando a ficar conhecida, daí o título do filme. Ele recebe a recomendação de não tornar-se amigo da banda, pois o êxito do repórter era ser sincero e impiedoso.

Como era de se esperar, ele se envolve com os músicos e se apaixona pela groupie Penny Lane, que realmente existiu. Ela era, digamos assim, a estrela das groupies que acompanhavam o ônibus da turnê e “pegava” o guitarrista, Russell Hammond, estrela da banda. Assim, o tímido e calado William acaba ficando apenas amigo da garota.

O repórter presencia, porém mais como um observador, todo o espírito louco da época. Foi nos 70 que o rock torna-se realmente pesado, com o auge de Led Zeppelin, Black Sabath, Lynyrd Skynyrd, entre outros. As festas, a bebedeira, as drogas e as loucuras estão todas lá também.

A banda inicia no esquema improviso, ônibus velho, pouco dinheiro e muita diversão. Com o sucesso rondado a banda, a coisa começa a se tornar profissional, mas de certa forma melancólica. O avião particular, dinheiro e outras regalias parecem custar o verdadeiro "espírito do rock".

O filme é cômico e apresenta cenas muito legais, sendo uma delas talvez a parte mais engraçadas do filme. Nela, a banda e produtor estavam em seu avião quando ocorre uma forte turbulência, que acaba arrancando uma declaração infeliz, porém hilária, de um dos integrantes. Há também a cena em que o guitarrista, bêbado, proclama-se um “Deus dourado”. Dizem que na vida real o protagonista dos dizeres foi Robert Plant, do Zeppelin.

Um ótimo filme que não mostra apenas o óbvio da época, pois tem como pano de fundo a teia de relações e sentimentos dos personagens. Divertido e emocionante, principalmente pra quem gosta do bom e velho Rock´n´Roll. Então, Let´s rock babe.